segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Denn manchmal Träum ich nur von dir

Na última semana de dezembro de 2015, eu ganhei uma passagem de Natal surpresa dos meus pais pra ir passar a virada do ano novo com meu namorado na Alemanha. Vibrei, obviamente. Quando contei pro Oli, ele ficou surpreso e feliz e disse que não sabia como eu conseguia ser tão espontânea. Não sei se vocês sabem, mas alemão planeja tudo. Essa coisa de visita surpresa na casa dos amigos não existe. É sempre algo com alguns dias de antecedência. No fim das contas combinamos as coisas e ele ficou de me buscar no aeroporto. 

Nos dias que seguiram até a viagem, eu nunca me senti tão feliz. Estava com saudade da Alemanha e comecei a rir do pensamento. Quem me acompanhou de perto, sabe que em fevereiro do ano passado eu estava morrendo de saudade de voltar para o Brasil pra comer feijão com arroz e churrasco de verdade e ver o sol. Em dezembro eu sentia saudades da terra gelada. Ok, tem o fator namorado e o fator que eu ia pra uma cidade sensacional que é Hamburgo e não Geesthacht (onde eu morava), mas ainda assim fiquei meio chocada com a excitação porque a relação que eu tenho com a ~germânia~ é de amor/ódio.

No dia da viagem, só faltei perder os cabelos de tanto nervosismo. Sabe quando a pessoa se anima tanto que esquece de fazer tudo o que importa? Gente, eu viajei só com o passaporte e a passagem de volta pra Portugal na mão. NÃO LEVEI AS RESERVAS DO HOTEL PORQUE IA FICAR NA CASA DO BOY E NÃO LEVEI CARTA CONVITE DELE. RISOS. Não passei por imigração e essa foi minha sorte, mas lá na bancada do embarque eu fui MUITO questionada pela companhia sobre como eu ia provar que ia só pra turista (ainda não tenho visto português) e vendo agora acho que só embarquei porque o voo estava atrasado e eles estavam num pandemônio lidando com muitos imigrantes. Mandei 12319362 mensagens para os meus pais e meu namorado e, graças a Deus, no final deu tudo certo. 

Lá no voo, decidi ler um livro pra relaxar um pouc porque quando eu pilho, o estrago é bem feio. A gastrite ataca, o coração dispara e eu só faço chorar. Assim, o único jeito que achei era dar uma voltinha no meu kindle e achar aquela que seria minha última leitura de 2015. E foi uma leitura maravilhosa. Escolhi o livro Um brasileiro em Berlim do João Ubaldo Ribeiro que é bem curtinho e dá pra ler em três horas e meia. O livro conta a história do próprio autor quando ele vai passar uma temporada na Alemanha com a família. Cada dia é uma crônica sobre algo particular de lá (comidas, trejeitos alemães, moedas). Asseguro a vocês que passei o voo inteiro rindo. Me encontrei muito dentro desse livro porque as primeiras impressões do João sobre aquele país foram exatamente as mesmas primeiras impressões que eu tive. Quer dizer, ele problematiza o fato de que os alemães combinam coisas com quatro dias de antecedência enquanto ele, brasileiro, não sabe o que diabos vai fazer daqui a duas horas, sabe assim? Ri demais porque lembrei das vezes que meu namorado, enquanto peguete, marcava encontros às 18:30 em ponto da sexta-feira e eu "querido, calma lá, depois do trabalho de ligo". Ou quando ele fica impressionado que as pessoas na Alemanha, de fato, gostam de ler e em todo lugar existe uma estante de livros farta. Ou quando ele compara a relação dos alemães com o dinheiro (na verdade são europeus em geral, se você paga 1,99 em algo, pode ter certeza que vai voltar um centavo de troco) e a dos brasileiros com o dinheiro (na época eram cruzeiros e ele se refere a esse dinheiro como um papel pra fazer qualquer coisa) e como foi difícil explicar aos seus filhos que as moedas de um e dois centavos eram importantes sim.

<3

A questão é que quando cheguei na metade desse livro, eu já tinha outra visão do que me esperava quando o avião pousasse. Eu já não estava com tanto medo assim do frio, nem das palavras gigantes e, na verdade, quando eu desci, eu tentei ler todas as propagandas nas paredes. Quando pus os pés no saguão, fui preenchida por uma alegria que eu não esperava e isso não tinha nada a ver com o meu namorado. Na verdade, lembrei de quando cheguei lá em agosto de 2014, com recém 21 anos completados, e  lembrei de todo o desespero e excitação que senti ao me dar conta que eu ia morar em um lugar que eu só sabia falar oi na língua deles e de toda a experiência louca que passei em seis meses. Eu me senti adulta e vivida naquele momento e meu peito inchou ao ver que dessa vez eu estava mais preparada e que, se eu quisesse, eu poderia me sentir em casa naquele lugar. 

soa bem, né?

Os dias que seguiram me presentearam com amor, amigos, neve e uma língua que já não me soava feia (na verdade ela tem uns fonemas muitos soft) e estranha. Eu ainda não consigo me comunicar em alemão, mas algumas coisas consigo entender se me esforçar um bocadinho. Quero melhorar nisso. Quero voltar pra lá. Sei que na condição de turista é mais fácil dizer que amou o lugar, mas não é como se eu tivesse ido pela primeira vez. Sei o que me aguarda e sei que a cultura é MUITO diferente, mas não posso negar que a ternura que passei a sentir por lá, me inclina a dizer que aquela é a minha segunda casa e, como dizem, home is where your heart is.

6 comentários:

  1. QUE TEXTO AMOOOOOOOOOOOOOOR <3 <3 me deu muita saudade da minha segunda casa também, tô muito feliz e com muita inveja de você, amiga! Espero muito que as coisas dêem muito certo e quem sabe, se você ficar por ai, eu não consigo te visitar? *sonhos* hahahaha estranhamente sempre achei alemã uma ingua foda, extremamente difícil mas eu sempre gostei, sou estranha? Queria aprender, mas acho que vou demorar pra sequer começar!


    beijo! <3

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  2. Eu tenho alma alemã então (norueguesa, na verdade), porque eu não suporto visitas em cima da hora. Eu devo ter algum problema, porque eu preciso me preparar psicológicamente antes de poder interagir socialmente, HUHAUAHUAH. Se alguém me convida pra algo em cima da hora e eu for, é porque essa pessoa é muito importante pra mim. E a mesma coisa quando eu dou a louca e resolvo convidar alguém em cima da hora, çlf,çsdf.

    Eu imagino que ter voltado pra Alemanha deve ter sido um sonho - se um dia eu voltar pra Noruega, sinto que vai ser algo bem assim. E rever namorado que mora longe é uma delícia, né? Complicado manter o relacionamento, mas vale totalmente a pena nesses momentos.

    Espero que você possa aprender bem a língua (não tem nada melhor do que poder conversar com o namorado na língua nativa dele, é muito divertido açlr,flçasd) e que possa visitar sua segunda casa mais vezes. Morando em Portugal não fica assim tão difícil, né?

    Beijinhos.

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  3. Larie, sabe que todo mundo que eu conversei até agora que fez intercâmbio fala a mesma coisa? Que foi morrendo de medo, logo que chegou ficou morrendo de saudade e quando voltou ficou com mais saudade ainda da segunda casa. Que bom que foi tão bacana visitar a Alemanha de novo! Também adoro reparar nessas diferenças de cultura, acho tão curioso, hahaa.
    Beijo!

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  4. Larieeee! Não sabia da passagem surpresa e eu só imagino o quão desgraçada da cabeça eu ficaria se fosse você. Ia ficar quicando de ansiedade até chegar no destino e passar pela imigração. Imigração, que coisa pra deixar o coração na boca, né? HAHAHAHAH Na minha viagem eu quase chorei chegando em Londres. Eu não entendia nada do que o cara perguntava, mas era eu quem respondia pela minha amiga. Vai entender.

    Essa foto tá linda, esse lugar deve ser lindo.

    Muito orgulho de você, guria. ♥

    Beijão!

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  5. Larie, primeiro de tudo: MIGA SUA LOUCA como tu viaja assim? hahaha que sorte cagada essa sua, tenho certeza que se fosse comigo tinham me mandado de volta pra Portugal na mesma hora. E que fofo que a passagem foi surpresa, não sabia. Acho tão legal seus pais apoiarem o seu namoro, os meus com certeza iam ficar MUITO bolados, principalmente porque eles não iam conseguir ameaçar o cara em alemão hahaha. Por falar em alemão, eu acho que tenho uma alma alemã, então, porque ia super me encaixar de planejar as coisas com séculos de antecedência, que aflição que VOCÊ me deu deixando tudo pra última hora.
    E que privilégio o seu de poder morar e visitar lugares tão lindos, aff. To doida pra ir por aí pra você me fazer turistar por todo canto #oferecida #mejoguei hahaha <3
    Beijo!

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  6. Eu me identifico muito com você nessa coisa da distância. É difícil explicar para as pessoas o quanto dói estar longe assim, por um oceano de diferença.
    Uma amiga alemã me contou que o Natal na Alemanha é extremamente especial. Algo envolvendo muitas pessoas na rua fazendo biscoitos de Natal, e um cheiro de biscoito surpreendente pela cidade. Morro de vontade de conhecer.

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