terça-feira, 29 de setembro de 2015

Perspectiva


Todos os dias eu acordo às seis e vinte da manhã com o ar-condicionado pingando. Desço, preparo o café, bato uma vitamina e como pão com manteiga. Converso com minha mãe e meu irmão até eles saírem para seus compromissos. Há exatos quatro meses não sei o que é compromisso porque minha universidade está em greve e eu não sei mais o que fazer com esse tanto de tempo livre. É de enlouquecer qualquer um. Leio um pouco de Bukowski, depois passo para Eugenides. Tomo um banho e visto a roupa de academia. Desço pra brincar com os cachorros até dar a hora de ir pro pilates. No pilates eu converso sobre tudo com a fisioterapeuta. Somos só nós duas, então temos que quebrar o gelo. Mas eu gosto da companhia dela. Companhia. Que saudade de ver gente diferente todos os dias. Volto pra casa, enrolo meia hora e vou buscar meu irmão na escola. Rodrigo virou meu melhor amigo. Tudo que acontece eu conto pra ele. Ele muda a estação de rádio quando toca música melancólica demais e fala dos meus relacionamentos como se já fosse grande o suficiente pra entender (ele tem doze anos). A gente ri de bobagens até chegarmos em casa. Almoçamos e depois do almoço ele me enrola todo dia na hora de tirar um cochilo. Dá uma e meia e eu faço um café porque ambos estamos destruídos de sono. Uma e cinquenta deixo ele na escola e volto para o meu quarto. Durmo até às três e depois assisto vários episódios de Hannibal, leio, marco médicos e de repente é de noite e eu não fiz nada. Busco meu irmão no inglês, a gente conversa, ele libera a nota de uma prova (vocês também escondiam?), a gente comemora ou eu dou sermão. Chegamos em casa e a gente inventa qualquer coisa pra comer. Ele estuda mais um pouco e depois tá todo mundo liberado. Mas eu não me sinto livre. Especialmente agora.

Minha vida, durante a semana, tem sido uma soma de zero coisas acontecendo. Eu havia esquecido como era viver na greve. Sempre na eminência de voltar, mas nunca voltando realmente. Eu só precisava desabafar um pouquinho. O sentimento de inutilidade tomou conta de mim e eu sei que ele só vai acabar quando as aulas voltarem. 

Veremos quando isso vai acontecer.

5 comentários:

  1. Amiga, uma das piores fases da minha vida foi quando eu saí do ensino médio. Não sei se já te contei essa história, mas basicamente eu saí do terceiro ano na metade, logo depois das férias do meio do ano, porque tinha passado no meu primeiro vestibular da UnB e como tinha notas boas (cof, cof), a escola me liberou pra ir pra faculdade e me deu um certificado mais cedo. Daí eu fui, e naquele misto de imaturidade e na surpresa desagradável que é se deparar com uma escolha errada, eu odiei o curso, as pessoas, larguei tudo e fiquei em casa até o próximo vestibular. Foi uma treva. Então eu te entendo super. Mas não tenta pensar muito nisso. Acho que, por mais que pareça que você não está fazendo nada, no fundo você está. Você faz pilates, pega seu irmão nos lugares, assiste Hannibal, lê livros, escreve aqui. São coisas. Talvez as coisas não estejam assim tão boas, mas o importante é nunca parar.

    amo você <3

    P.S: Por que ar-condicionado pinga água? O meu é igualzinho e às vezes até cospe umas pedras de gelo (sim).

    ResponderExcluir
  2. Bah, eu te entendo muito nisso! Minha faculdade não entrou em greve, mas sou o tipo de pessoa que não consegue ficar muito tempo em casa sem fazer nada - além das tarefas normais do dia a dia - sem se sentir inútil. Todo mundo anseia pelas férias, e eu... bem, eu gosto, mas preciso achar algo pra fazer, algo pra somar, como tu disse.

    Mas é fase. Sei que é clichê dizer isso, mas passará e logo tu estará cheia de coisas que somam.

    Beijo ;*

    ResponderExcluir
  3. Como uma pessoa que também já não aguenta mais viver o mesmo dia há 4 meses, sinto que posso dizer que entendo perfeitamente como você está se sentindo. E olho que você ta se saindo bem melhor do que eu, porque a maior parte do tempo eu venho passando em cima da cama mesmo, só enrolando para fazer os trabalhos que preciso entregar quando a greve terminar.

    O pior pra mim é essa montanha-russa de emoções sempre que tem alguma assembléia ou boatos de que as aulas vão voltar. PARE DE BRINCAR COM MEUS SENTIMENTOS ASSIM, GREVE!

    Boa sorte para nós hahah

    Beijo!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. ai, escrevi "olho" no lugar de "olha". Essa mania de não rever as coisas que eu escrevo hahah

      Excluir
  4. Nossa Larie D: que terrível, um dos maiores motivos pelos quais nunca quis faculdade pública é realmetne esse entra e sai de greve. Hei de concordar com a Ana lá em cima, cê ta fazendo coisas sim! Pode não ser nada grande, mas são coisas e é melhor que nada, já fiquei no ócio assim e é enlouquecedor mesmo, já comentei que queria MUITO morar pertinho pra te arrancar de casa nos tempos livres?

    <3

    beijo

    ResponderExcluir