sexta-feira, 26 de junho de 2015

Cotidiano de uma irmã

antes que eu pudesse ter percebido, eu havia virado tia. não tia de sangue porque meu irmão tem só 12 anos, mas a irmã que é ~tia~ e leva os pré-adolescentes para os lugares. antes que eu pudesse ter percebido, o melhor amigo do meu irmão tinha passado de mim. e criado aquele bigode tenebroso de menino de doze anos. e adquirido aquela voz desengonçada que ora afina ora engrossa. nada do que eu tinha visto dentro de casa, mas quando me dei conta, meu próprio irmão adquirira essas características.

esses dias minha mãe brigou com meu irmão por um motivo banal no almoço e ele perdeu a fome. foi pro quintal sozinho. perdi a fome também porque não foi justo. saí em busca dele e o encontrei encolhido, engolindo o choro ao lado da casa do cachorro. sentei na beira da piscina sem encará-lo muito pra ele não ficar desconsertado e sugeri que voltássemos à mesa. ele recusou. conversamos um pouquinho sobre o que tinha acontecido e ele me disse "foi injusto, eu ia entregar meu celular pra ela, não quero voltar pra lá" e eu, me sentindo a sabichona, disse "volta lá, come em silêncio que eu tenho certeza que ela vai te devolver o celular. só fica quieto". ele não acreditou, então apostamos um real e fomos. eventualmente minha mãe acabou devolvendo o celular pra ele e ficou tudo certo.

depois ele me perguntou qual bruxaria eu havia feito e eu ri e pensei como essa fase da pré-adolescência era horrível mesmo.

outro dia estava ajudando ele a estudar pra prova de matemática e me deparei com probleminhas que já haviam me deixado de recuperação vários natais passado. ri um pouco e falei "nossa, que negócio fácil" e meu irmão me olhou com cara de raiva porque ele havia passado uns bons quarenta minutos no mesmo problema. ajudei, expliquei, refizemos os problemas juntos. mas enquanto ele odiava aquilo, eu amava. matemática era um monstro pra mim na escola e hoje sinto que a venci completamente (pelo menos a do 2º grau e os cálculos da faculdade haha). de novo ele me perguntou qual era a bruxaria que eu estava fazendo pra resolver as coisas com tanta simplicidade.

e foi aí que me peguei pensando: quando foi que eu virei o tipo de adulta que sabe das coisas? quando foi que eu passei a ter tanta segurança da resposta que o mundo ia me dar? quando foi que aprendi a decifrar a minha mãe e mais, quando foi que virei essa irmã-tia que mais abraça a dor do irmão do que perde a paciência com ele?

muitas questões. rodrigo, se algum dia você ler isso, saiba que na verdade as questões só tem um direcionamento diferente. nada mudou. e que tudo vai depender do referencial.

3 comentários:

  1. Poxa, adorei esse texto, e seu blog, consequentemente. Li o outro texto também, que fala dos estudos do teu irmão. Acho bacana esse se questionar e esse perceber que a gente tá crescendo e entendendo coisas que antes não entendia. E melhor ainda é ajudar alguém que passa pelo mesmo que já passamos. Pelo jeito você é uma irmãzona, hein! Espero que dê tudo certo entre vocês e essa camaradagem só evolua!
    Beijo

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  2. Amiga <3
    Acho que o mais estranho de virar adulto é que a gente não percebe que, de fato, viramos adultos então quando nos damos conta que atravessamos a fronteira é sempre uma surpresa. Eu vivo mais ou menos as mesmas coisas em casa, e é incrível porque parece que foi ontem que eu estava vivendo essas mesmas coisas e agora sou em quem dá conselhos pro meu primo, e leva ele pro shopping e ensina o dever de casa. Não cheguei no nível de não perder a paciência porque nossa, quando lidar com pré-adolescentes se tornou tão difícil? Mas a gente vai caminhando como pode.

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