domingo, 7 de setembro de 2014

E que o medo de viver um dia se torne um grande amor

Quem é meu amigo sabe que na minha cabeça existe muita neura em relação a um monte de coisas. Sabe também que quase sempre elas estão erradas e não condizem com a realidade. Se vou em um médico, por exemplo, já espero o pior. Morro de véspera igual a peru de natal. Se preciso apresentar um seminário, já começo a gaguejar dez minutos antes achando que Deus e o mundo vão me julgar pela apresentação imperfeita. Se viajo de avião, acho que o mesmo vai cair porque as coisas não podem dar certo. O pessimismo ganhou a batalha aqui dentro de forma devastadora há 5 anos, me fazendo então ter medo de me jogar na vida e aproveitar o máximo dela.

Tenho uma amiga que um dia me disse que perdi meu brilho do ensino médio, afinal eu era alegre, contagiante, piadista e gostava de entusiasmar as pessoas a sair de casa. Resmunguei pra ela e disse que ainda era a mesma, mas a verdade é que eu não queria dar o braço a torcer. Na verdade, depois que fui chutada pelo primeiro cara que eu gostei e me envolvi, não consegui mais me soltar. A partir daquele dia comecei a achar que eu era sem graça, que eu não era boa o suficiente, que a vida era desagradável e tudo mais. Depois de um tempo, acabei incorporando isso na minha vida e virei caseira. Namorei um cara muito caseiro, meti as caras na literatura e me joguei nos deveres da faculdade. Há coisas muito positivas que saíram disso, mas eu vivia com aquele constante sentimento de que faltava algo na minha vida. Chorei noites e noites sem saber o motivo. Eu olhava para o teto, para aquela imensidão branca e perguntava se aquilo era o máximo que a vida podia me dar.

Não era.

Nesse caminho para a terceira semana longe de casa, pude ver que a vida é muito mais do que eu imaginava e que ela pode me dar o dobro de coisas boas quando comparadas as coisas ruins. O medo constante de colocar o pé pra fora de casa aos poucos está esvaindo. Lógico que eu ainda tenho neuras, mas elas estão muito mais leves que antes. Agora eu tenho a coragem de voltar para casa e pegar o ônibus sozinha. Não tenho mais medo de errar o caminho, de pisar firme no chão e seguir em frente, de questionar, de experimentar comidas exóticas,  de falar para o cara que eu queria ficar com ele, de beber e dormir no quarto do amigo, de dançar Shakira e perceber que os espanhóis estão me secando, de dividir a casa com homens, de me enfiar no trem e ir pra outra cidade conhecer, de perguntar como as coisas funcionam uma/duas/três vezes.



Não tenho mais medo.



E isso, meus caros, está sendo uma lição libertadora pra mim. Logo eu que havia criado uma bolha entre mim e o mundo. Logo eu que cansei de desabafar com as amigas sobre neuras estúpidas. Logo eu que tinha medo dessa grande coisa chamada vida.

Obrigada, Deus, pela graça concedida.


É lógico que eu ainda desconfio de coisas, que eu não gosto de andar no escuro sozinha, que eu acho bizarra certas aproximações, que eu não confio em todo mundo e que eu vivo sob aquela regra “seguro morreu de velho”, mas estou mil vezes mais relaxada que antes e isso vem sendo tão saudável que mesmo bebendo e fazendo estripulias culinárias, não tive UMA crise de gastrite sequer desde que cheguei aqui. Então o negócio só pode estar me fazendo muito bem. Ainda bem.

3 comentários:

  1. É engraçado ler sobre algumas das suas neuras e perceber que elas são muito semelhantes às minhas, embora eu seja tão (ok, talvez não tanto) mais nova. Também é legal saber que a vida é realmente o que eu espero que ela seja - divertida, leve, encantadora - quando a gente se arrisca e sai um pouquinho da nossa zona de conforto. Tento fazer isso de vez em quando, e esse seu post me fez enxergar que pode dar muito certo. Obrigada e divirta-se. Beijos!

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  2. To adorando ler seus relatos dessa experiência e perceber o quanto você tá ~crescendo~. Sempre acreditei que intercâmbio fazia isso com as pessoas, mas nunca tinha observado tão de perto, Larie! E que foto linda essa última! Curta muito - mesmo que naquela casa assustadora. Beijos!

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