quinta-feira, 3 de julho de 2014

Solanin

Minha história com a cultura japonesa é um ponto gostoso de se lembrar da minha pré-adolescência. Tinha acabado de mudar de colégio para um lugar onde não conhecia ninguém (e só permaneci por um ano) e carregava nas costas um problema de coluna que naquela época era algo que incomodava muito e era visível pras pessoas ao meu redor (eu andava completamente torta e usava um colete para deixar a coluna ereta). Fazer amigos não parecia algo que fosse acontecer fácil devido às minhas anormalidades, mas acabou acontecendo de maneira suave e alegre pelo fato de eu gostar de me enturmar e das pessoas naquele colégio não serem preconceituosas. Fiz bons amigos que hoje são meros conhecidos, mas que fizeram aquele período tão marcado por consultas médicas uma época cheia de momentos bons para se lembrar. 

Foi nessa época, portanto, que conheci uma menina que acabou sendo a minha melhor amiga durante a sexta e a sétima série. Nossa dinâmica era engraçada por causa das diferenças. Ela gostava de rock, eu de pop. Ela era rebelde, eu era mais certinha. Ela desenhava a aula toda, eu era focada no que o professor falava, dentre outras coisas. Mas mesmo assim ela foi fundamental para eu abrir as portas para o mundo das bandas tradicionais de rock e para a cultura japonesa. Foi com ela que eu passei tardes e mais tardes assistindo animes, conversando sobre mangás e tocando violão. Foi juntas que construímos um site sobre cultura japonesa e ganhamos SABONETES DE MARACUJÁ (sim, aquela escola não tinha limites) como prêmio de segundo lugar no colégio e foi com ela que eu peguei emprestado meus primeiros mangás de Chobits depois que fiz a cirurgia e tive que ficar de cama. Não posso dizer que foi uma época solitária, né? Foi ótima.

Anos mais tarde, porém, acabei me afastando dela porque meu universo ficou um tanto diferente e eu fui estúpida o suficiente ao achar que as coisas não podiam coexistir. Enfim. Com isso acontecendo, meu interesse por mangás e animes também foi diminuindo e passei alguns bons anos sem me envolver com qualquer coisa desse tipo, até saber que os mangás de Sailor Moon seriam relançados e que uma nova temporada estaria por vir. Quando encontrei o mangá cor-de-rosa na livraria só faltei chorar de emoção e desde esse dia acabou meu pudor e a vergonha de me assumir uma leitora de mangás (porque as pessoas tem um preconceito imenso e julgam quem lê como gente que esqueceu de crescer). Foi uma experiência libertadora poder ler isso no meio da rua e não me sentir menos inteligente que os outros, sério.

A questão é que mangás, assim como livros, tem um bocado pra nos ensinar e eu não entendo o preconceito em torno de estilo de quadrinho tão rico. Pra provar isso, a L&PM pocket lançou o Solanin (1 e 2) que passou a ser uma das histórias japonesas que mais gostei de ter tido a chance de ler. Ela se passa em torno da vida de jovens recém-formados na faculdade que estão infelizes com a vida que levam e que se rebelam diante da conformidade dos seus dias abandonando empregos e seguindo seus sonhos. Até aí é bem cliché mesmo, mas o Inio Asano nos mostra que largar tudo e seguir seus sonhos pode não dar certo nunca e que só cabe a você dar um jeito de improvisar uma maneira de fazer as coisas ficarem próximas dos seus desejos. Porque a vida realmente não é fácil pra ninguém e ele bate nessa tecla os dois mangás inteiros, reforçando que "enquanto a gente dá voltas na vida, vai se perdendo de si mesmo, pouco à pouco" e cabe somente à nossa maneira de encarar a realidade de voltar para si. É lindo e bem triste ao mesmo tempo porque a gente se dá conta cada vez mais que em fração de segundos tudo aquilo que você planejava pra vida pode desmoronar e que só você tem o poder de achar um jeito criativo de sair do fundo do poço, sem nunca desistir das coisas que te fazem bem. E, se vocês pensarem bem nisso, vão perceber que não é tão simples quanto parece e que é necessária muita força de vontade pra tomar atitudes assim. 



É realmente ótimo. Indico a todos. Só não conto mais porque deposito credibilidade em vocês pra irem atrás do Solanin na livraria. Não haverá arrependimentos com a história, além do traço ser lindo.

3 comentários:

  1. Ei Larie :)
    Nunca gostei de Mangá. O que tentei ler e que chega mais perto disso foi a Turma da Mônica Jovem, e nem eu AMANDO a Turma da Mônica não consegui me desenvolver com os traços diferentes e em preto e branco. :(
    Mas muitos dos meus amigos de colegial eram viciados nisso e inclusive brincavam daquele trem que não lembro o que é, de sair fantasiados pra ir numa feira (?) de animé, sabe?
    Beijos!

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  2. Larie!
    Meu irmão começou a se interessar por mangás de uns tempos pra cá e acho que de tanto ouvir ele buzinando no meu ouvido sobre o assunto eu meio que criei uma aversão. Mas ler você comentando sobre suas experiências e sobre as mensagens que esse, em específico, traz, me animou a procurar ele ou algum outro pra ler.
    Qualquer coisa volto aqui pra te falar se li algum, se gostei, enfim.
    Beijoca!

    palavras alienadas

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  3. Tua história deve ser incrível, garota. Eu vivo com uma curiosidade gritante de querer saber mais da vida das pessoas, como se fossem um site EGO! ambulante. Mas enfim. Nunca li mangá. Minto, li um ~~mangá~~ da Turma da Mônica, mas uma revistinha que apareceu não sei como, na casa da minha mãe. Nem é preconceito nem nada, acho que nunca tive foi uma amiga rebelde que me mostrasse mais dessa cultura.

    Da cultura japonesa, estacionei nos sushis. Fim.

    Beijocas

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