terça-feira, 17 de junho de 2014

Broken chains

Apesar de nunca ter gostado muito da denominação “melhor amiga”, houve um tempo que minha vida girou em torno de uma delas do ensino fundamental II até o ensino médio. Passávamos a manhã juntas durante a aula e durante os intervalos e quando chegávamos em casa, lá pras cinco da tarde, ligávamos uma pra outra pra bater um papo de aproximadamente duas horas. Era uma agenda cheia porque gastávamos tardes e mais tardes falando do pessoal do colégio e dos meninos fora dele e sobre como o primeiro beijo nos amedrontava – isso quando não páravamos pra ligar no meio de One Tree Hill e comentar sobre o quanto amávamos o Nathan. Foi uma época boa, mas num momento a coisa desandou.

Meus amigos começaram a dizer que eu tinha virado um clone dela, como se eu tivesse perdido minha identidade, e que até meu jeito de falar era parecido com o dela. Isso começou a me assustar depois de um tempo e depois de descobrir que nem todos os segredos dela eram compartilhados comigo (não que eu desse importância a isso, mas se ela queria exclusividade dos meus segredos, por que ela não podia fazer o mesmo?), fui me afastando cada vez mais. Depois do meu primeiro beijo nossa amizade começou a desmoronar (isso quando eu tinha 16 anos) e até hoje é bem desestabilizada, apesar de que ela ainda invade minha casa quando estou dormindo à tarde a cada dois meses ou algo assim.

Tudo isso pra constatar que sim, amizades acabam pelos motivos mais idiotas e que a pessoa pode se tornar uma estranha mesmo que ela saiba de vários detalhes da sua vida. Eu ainda sei a cor preferida dela e da vontade dela de fazer as pessoas a verem como uma pessoa experiente e madura e sei que ela vive um inferno dentro de casa por motivos que não fazem sentido. Sei também que o chuveiro do banheiro do quarto dela é gelado que dói e que ela fez reeducação postural global porque andava muito curvada e que já sofreu bullying por ser muito magra, entre outras coisas. Mas saber desses detalhes não é suficiente porque coisas da personalidade dela continuam fazendo eu me afastar.


Foi triste constatar, portanto, que eu tentei arranjar uma forma de contornar essas particularidades dela a fim de tentar me reaproximar, mas é tudo muito insuportável. Ela era uma amiga dedicada sim, daquelas que trazem chocolate pra te consolar quando sua cachorra morre ou fazem um presente todo à mão com coisas que só você gosta e não duvido que continue fazendo essas coisas com sei lá quem, mas o jeito como ela trata as pessoas ao seu redor não me desce mais e ela nem mudou tanto assim. Hoje ela me chama de sem graça, atribui a mim a culpa pelas coisas terem ficado tediosas e me acha incapaz de trazer alegria a um lugar e, olha, eu não preciso disso mesmo na minha vida porque eu sei que sou capaz de fazer quem eu quiser rir só contando sobre os causos da minha vida (que não são muito, mas ok). E se eu prefiro enfiar a cara num livro e assistir trocentos filmes e tocar violão sozinha, não é porque eu só sei fazer coisas sem graça, é porque gosto disso mesmo. Se ela não quer aceitar algo com que me sinto bem então que continuemos nossas vidas assim mesmo, cada uma caminhando pra um canto.

Eu tentei.

PS1: Não tô dizendo que fui a melhor amiga do mundo. Sei que magoei ela diversas vezes, mas ela também me magoou e continua fazendo isso, não por ser má, mas porque ela tem esse jeito mesmo. Só decidi não acatar isso pra minha vida porque não preciso de alguém pra ficar dizendo o que devo ou não fazer.

PS2: Também posso estar errada e a vida há de me mostrar isso.

4 comentários:

  1. É difícil admitir o fim.
    Eu diria mais: é difícil admitir que uma amizade assim, de anos, possa terminar. Mas a vida é mesmo imprevisível e chega um momento em que a gente muda tanto (ou a outra pessoa, ou as duas) que uma já não se encaixa mais na vida da outra. E acaba. Como tudo na vida, amizades de anos podem, sim, acabar, e a gente não pode fazer nada a respeito - aliás, parece que tentar consertar só piora. Falo por experiência própria.

    "E se eu prefiro enfiar a cara num livro e assistir trocentos filmes e tocar violão sozinha, não é porque eu só sei fazer coisas sem graças, é porque gosto disso mesmo." Adorei essa frase e me identifiquei tanto... Esse ano eu vi uma amizade de 8 anos se esvaindo, fugindo por entre meus dedos e eu não pude fazer nada. Mas, sendo realista, vejo que há uns 2 anos nós já estávamos distantes, nossas prioridades mudaram e nossas personalidades não eram mais compatíveis. O que se pode fazer é aceitar o fim, permanecer de luto pelo tempo que achar suficiente, mas depois seguir a vida. Porque no final das contas inícios e términos estão acontecendo a todo momento, temos que aprender a lidar com isso.

    macabea-contemporanea.blogspot.com

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  2. Oi, Larie. Devo dizer que me identifiquei com o seu texto, pois vivi uma história semelhante. Uma amizade de 4 anos que regrediu até nos tornarmos completas estranhas. O mais curioso é que foi um tanto libertador, porque eu era um tipo de sombra dela. Aprendi que eleger uma só pessoa como melhor amiga é um tanto limitador e desnecessário. Hoje, tenho bons amigos e já é suficiente. Algumas pessoas simplesmente não merecem nossa amizade e não faz mal se afastar de quem nos faz mal e não respeita nossas decisões.

    Deu até vontade de escrever sobre isso! Hehe
    Abraço!

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  3. Assim, as amizades acabam também. E não necessariamente por brigas, mas porque incompatibilidade de valores e pensamentos, Larie. Muitas das minhas amizades terminam assim. E confesso que sempre odiei a terminologia "melhores amigos"

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  4. Larie, eu te entendo muito. Tô passando por coisas parecidas no quesito amizades. E, olha, dói muito admitir que é o fim, Ou que não é mais como era antes e talvez nunca mais seja. A gente precisa de muita coragem pra admitir isso. Porque, como você disse, a pessoa sabe muito de nós e nós sabemos muito dela. É complicado se dar conta de que somos pessoas diferentes, tomamos caminhos diferentes, não combinamos mais, não nos fazemos bem. E se tem uma coisa que eu aprendi é que amizade é pra ser leve, fazer feliz, render coisas boas. Se no pesar da balança, as coisas ruins ganham, algo está errado. Fico feliz que você tenha se dado conta dessas coisas todas e espero o que for melhor pra você. Também estou nessa batalha e ainda não sei como vai terminar. Beijo, amiga <3 Força pra gente!

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