quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Essa vida de professora

Meu irmão é possuidor de um dos piores gênios com os quais já me bati em toda a minha vida, sem brincadeira. Acho que a melhor definição dele que tenho em mente aqui e agora é que ele é cabeça dura. Minha mãe crê - e agora eu também -, que ele é reencarnação do meu avô por parte de mãe, que era dono de uma teimosia e autoritarismo sem limites. Rodrigo, meu irmão, é bem assim. Mesmo para uma criança de nove anos, ele consegue me vencer em todos os meus dezoito anos nessa questão de ser teimoso. Não é normal. É uma fera indomável. 

Recentemente ele ficou em recuperação em todas - sim, todas - as matérias na escola, sendo que ele estava tendo aulas com professoras particulares. Tipo, foram seis meses pagando quatrocentos reais a uma pedagoga - na verdade foram várias porque elas não aguentavam e pediam pra sair -, para que ela exercesse seu papel de professora e ensinasse ao meu irmão e ele conseguiu a proeza de ficar em recuperação em tudo, até nas matérias que ele gosta. Daí minha mãe deu um basta e disse que ia assumi-lo, só que ela não aguentou o próprio filho e passou a bola pra mim. E, vejam bem, passar a bola não é pedir com carinho para que a filha ensine seu irmão, ela me obrigou a fazer isso e mandou eu dar meu jeito, inclusive quando as aulas da faculdade voltassem. E, gente, não estou recebendo por isso. Fikdik.

O negócio todo é que, aos poucos, fui aprendendo a lidar com o gênio do meu irmão durante os deveres e, olha, não foi uma tarefa fácil. Já fiquei rouca de tanto grito que tive que dar e já chorei altas vezes na frente dele. É simplesmente difícil. Quando ele diz "não vou fazer o dever" já tremo na base porque sei que a luta vai ser grande para ele conseguir se concentrar, mas já consigo inverter o quadro cada vez mais rápido. E hoje posso dizer que estou extremamente orgulhosa com meu trabalho de educadora, pois ele recuperou todas as notas e, inclusive, está tendo um ótimo rendimento na escola, segundo a professora e a coordenadora.  Meu irmão era a criança mais dispersa e difícil do ensino fundamental, hoje ele se igualou à aos guris da sala dele. Vocês não imaginam a minha satisfação ao saber que boa parte disso se deve a mim, sério. Só que não sei se vou dar conta mais disso. 

sim, ele estava se aprontando pra me dar dedo.
E tenho quase certeza que não dará mesmo. Já contei em posts anteriores que consegui entrar como voluntária num laboratório e que pretendo começar minha iniciação científica agora e, portanto, meu tempo livre será consideravelmente reduzido, até porque as aulas retornarão semana que vem, então eu tenho minha física A, meu cálculo III, minha álgebra linear e meu cálculo numérico pra correr atrás. Ufa, canso até de pensar. Agora parem e pensem comigo que irei chegar em casa lá pras oito da noite quase todos os dias e que ainda tenho que estudar. Onde ficará a parte de ensinar a tarefa pro irmão? Parece impossível, minha gente. Eu não quero, não vou ter estrutura pra "ser mãe" dele quando as aulas voltarem e agora só fico me perguntando: quando e como direi isso a minha mãe? Minha consciência pesa em abandonar meu irmão, mas também preciso olhar pra mim. Tá difícil.

Obs: mesmo que minha experiência como professora de guri tenha sido um sucesso, NUNCA na minha vida quero tomar frente de uma sala cheia de pestinhas. Palmas às professoras que aguentam, o trabalho é árduo.

5 comentários:

  1. Legal vc ajudar seu irmão, mesmo que forçada, vc escreve bem, gostei do blog, parabens e bom retorno as aulas

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  2. obrigada =D e o seu layout é tão lindo que da vontade de usar =P

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  3. Meu deus. É por isso que eu não dou aula para crianças, só para adultos e depois darei aulas para adolescentes [o que eu espero que não seja pior, oremos].
    Que bom que ele conseguiu melhorar na escola.
    E agora que tu vai estar ocupada, nem vai precisar dizer muita coisa para tua mãe. Só mostre o teu caderno de Cálculo. Pronto, ela não vai entender nada, aí tu faz um drama que de que ta fazendo mil coisas e tcharãm, ta liberada! hahahaha
    Beijo.

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  4. Nossa, deve ser uma luta duríssima! Eu amo crianças, mas sei que essa idade aí é bem difícil de lidar. Então, parabéns, porque o trabalho deu resultado - e que resultado!

    Boa sorte!
    Beijos

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  5. Nunca fui uma aluna encrenqueira, mas te garanto uma coisa; para ensinar, acredito ser necessário ter um dom. Não é qualquer pessoa que pode fazê-lo. O meu marido - que é Mestre em Educação - coordena escolas municipais e é absurdo até o fato de que muitas "professorinhas" deixam estudantes de 7 a 10 anos de idade sem o lanche, porque ele "fez bagunça". E outras tantas, que ensinam em escolinhas com um pátio enorme, destinado a diversão, não permitem que os alunos saiam da sala no recreio, pois eles "irão se machucar, correndo por aí".
    Eu mesma tive professores péssimos. Aqueles que estavam perto da aposentadoria eram os piores. Compreendo a insatisfação salarial, entre outros termos, mas é absurda a falta de motivação - muitas vezes por nada - desses ditos educadores. Alguns até torciam para quando tivesse greve, pois desejavam passar um tempinho em casa.
    Enfim, desculpa o desabafo. Acho muito válido que você tenha feito seu irmão entrar na linha. Às vezes a criança só necessita de alguém de confiança e que tenha paciência para lidar com o seu gênio. Ensinar não é fácil. Mas a gente aprende muito ensinando também.
    Abraços!

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